QUAL SERÁ A CARA DO CINEMA NA WEB? (PARTE II)
Leia a primeira parte desta entrevista aqui.

O especialista em cinema e novas mídias Arlindo Machado nos fala, na segunda parte desta entrevista, como será o novo fenômeno cinematográfico on line.

BD >> Das experiências cinematográficas on line poucas exploram o conceito mais amplo de interatividade. Você acha que esta idéia é fundamental para um e-movie genuíno? Você poderia citar alguns trabalhos que estão na rede que englobam esta idéia de cinema interativo? A Sony lançou uma coisa chamada Cinema em 360 graus em que o navegador vai escolhendo para onde seguir com o filme, isto e a onda de "faça seu próprio filme" vão contaminar a rede?

Arlindo Machado >> Em primeiro lugar, não é obrigatório que tudo seja interativo. Hoje, abusa-se demais no emprego da palavra "interatividade" e nem sempre se usa esse termo no sentido mais exato. Fundamentalmente, interatividade é a propriedade de um sistema de admitir a intervenção ativa de um agente externo como um concriado da obra. Nem sempre o que se vende como interatividade dá de fato ao espectador esse potencial criativo. Por exemplo, atualmente há um filme lançado no mercado em DVD e vendido como o primeiro "filme interativo". Na verdade, o espectador que entra nesse filme não monta seu próprio filme, mas apenas obtém um filme formatado especialmente para ele. Uma série de questionários inseridos ao longo da narrativa (tipo "em que partido você vota?", "qual é a sua religião?", "você aprova relações sexuais fora do casamento?" etc.) vão permitindo ao programa selecionar apenas aquelas situações dramáticas que o espectador teoricamente deve considerar as ideais. O resultado é um filme linear, até mesmo convencional, só que personalizado, ou seja, nele só acontece o que o espectador, em função de seus valores, gostaria que acontecesse em todo e qualquer filme. O contrário disso são aquelas narrativas (apenas escritas) disponibilizadas na rede e que podem ser alteradas por qualquer leitor. Neste caso, o leitor não responde apenas a um questionário, mas efetivamente altera a redação do texto e recoloca em circulação o texto alterado. Em 1996, o escritor alemão Norman Ohler publicou "Die Quotenmaschine", um romance concebido para a Internet e escrito a mil mãos, pois cada leitor podia reorientar a história e acrescentar ou suprimir personagens. Evidentemente, é mais fácil fazer isso quando se trabalha apenas com texto escrito. Mas nada nos impede de conceber um filme interminável, que um diretor começaria a fazer e outros poderiam se intrometer, reeditando e acrescentando novas cenas.

BD >> Mike Figgis fala em entrevista (www.zetafilmes.com.br/inter.figgis.htm), que apesar de lançar o "Time Code", todo em digital, filmado em tempo real etc., uma coisa inédita em Hollywood, não colocou o filme disponível na rede. Talvez porque a tecnologia streaming ainda não dê conta de longas-metragens. Mas uma das coisas que diz é que vai poder filmar na Rússia, por exemplo, em 5 dias e no sexto dia transmitir o filme pela Internet para todo mundo. Isto já é possível e viável mesmo. O quê esta instantaneidade, antes própria ao vídeo, vai fazer com o cinema em termos estéticos?

Arlindo Machado >> Em primeiro lugar, nos níveis atuais da tecnologia que temos em casa, ainda estamos longe de poder contar com uma televisão ou cinema na Web. Uma imagem de televisão (para ficar na imagem mais modesta, pois a do cinema é ainda mais densa) tem 525 linhas de resolução e 30 "frames" por segundo em tela inteira. Para que se possa ter uma imagem com essa definição na Web ainda vamos ter de esperar algum tempo. Quanto a filmar na Rússia e disponibilizar na rede no sexto dia é um atraso descomunal. A televisão é capaz de colocar no ar uma imagem no instante mesmo em que ela está sendo tomada por uma câmera. A televisão européia está redescobrindo a transmissão ao vivo e até mesmo ficções estão sendo novamente transmitidas em tempo real. Por isso, em termos de audiovisual, acho que a coisa mais interessante que está acontecendo atualmente na Web são as Web-câmeras ao vivo e aqueles eventos em que os usuários podem intervir em tempo real (como os encontros de avatares). Nos tempos atuais, seis dias é uma eternidade.

(F.A)