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QUAL SERÁ A CARA DO CINEMA
NA WEB?
Entrevista com Arlindo Machado, professor e especialista
em cinema e linguagem das novas mídias que nos explica o
que anda acontecendo com o cinema na Internet.
BD
>> As novas tecnologias estão permitindo que se tenha
acesso a filmes de todos os formatos, gêneros e qualidades
a partir do seu desktop. A maioria dos filmes na Internet não
foram feitos ainda se pensando na linguagem mais apropriada
para a transmissão e o próprio meio. Qual é
a linguagem do cinema na rede?
Arlindo
Machado >> Hoje fala-se muito de cinema na web, televisão
na web, rádio na web. É preciso que fique claro, antes
de mais nada, que um produto audiovisual concebido especificamente
para a rede não é mais cinema, nem televisão,
nem rádio, pelo menos não no sentido em que hoje entendemos
esses meios. Há uma diferença entre um filme, um programa
de TV, ou uma música simplesmente disponibilizados na rede
e uma forma audiovisual adequada para o meio telemático.
Essa forma, que ainda não existe, está sendo ainda
experimentada, terá que receber um novo nome, será
alguma coisa de outra espécie. Hoje, a maioria das pessoas
assiste a filmes na televisão, mas nem por isso se pode dizer
que cinema é televisão. Assim também, um filme
não vira web-cinema só porque está sendo difundido
na rede. A Web parece ser um meio de distribuição
e arquivo ideal para filmes de curta ou curtíssima duração
e é nesse sentido que ela está sendo utilizada.
BD
>> Nos anos 80, já se falava num novo conceito de cinema:
o eletrônico. Nos anos 90 foi o boom do digital.Como você
vê estas transformações hoje? Qual é
o cinema que você imagina para o futuro?
Arlindo
Machado >> Prefiro acreditar que os vários meios
diferentes - cinema, vídeo, televisão, multimídia
- estão convergindo em direção a um meio novo,
que será único, mas plural. Esse novo meio resgatará
todas as conquistas de linguagem dos meios anteriores, mas os atualizará
num novo ambiente, ao mesmo tempo em que irá acrescentar
recursos que são próprios apenas dele. Esse novo meio
não precisará ter uma fisionomia única. Ele
poderá aparecer sob mil formas diferentes, ter uma imensa
variedade de gêneros e estilos, como hoje já acontece
com a televisão. Tem gente ainda pensando o cinema na Web
apenas como narrativa de ficção, mas imagino que esse
cinema poderá, em alguns casos, assumir formas mais próximas
do vídeo-game, em outros mais próximas das atualidades
e do telejornal, em outros ainda mais relacionadas com o video-clipe
ou o documentário. O que mais me excita, porém, é
imaginar formas de audiovisual inteiramente novas, que não
foram sequer suspeitadas antes, como já é o caso das
web-câmeras, que ficam permanentemente ligadas em algum lugar,
transmitindo imagens e sons ao vivo de tudo o que acontece ali,
seja real ou ficção.
BD
>> Você acha que a Internet é só um meio
de distribuição mais democrático ou acredita
que há um potencial para gerar novos meios do fazer artístico.
Quais e como seriam estas artes nascidas e pensadas para Internet?
Arlindo
Machado >> A Internet, como a televisão, pode
ser as duas coisas. Pode ser usada apenas para distribuir filmes,
livros ou músicas que foram concebidos para outros meios,
ou pode dar nascimento a uma linguagem nova, com produtos pensados
exclusivamente para ela. Uma das características atuais da
Internet é que ela funciona como um gigantesco banco de dados,
onde se pode entrar em busca de informações. Qualquer
produto pensado para a Internet vai ter de lidar com essa metáfora
do banco de dados. Por exemplo, um programa de televisão
na Web não pode mais ser concebido para horários e
dias específicos. Ele vai ficar armazenado numa memória
de computador e o espectador poderá vê-lo quando quiser.
A novela das oito poderá portanto ser assistida às
cinco da manhã, se o espectador quiser. Assim também,
um filme na Web não precisará ter uma forma definida.
O espectador poderá escolher, dentre as várias opções
armazenadas num computador, a sua duração, o desenrolar
de seus acontecimentos, os ângulo de câmera, o sexo
do protagonista principal, a quantidade de acidentes ou infortúnios
que vai sofrer ao longo da história, etc.
Leia
o resto da entrevista com Arlindo Machado, falando sobre cinema
e interatividade, na próxima edição do What's UP.
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